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Padrão Web 2.0 - será ficção?
quarta, 15 de novembro de 2006

O novo conceito criado há pouco tempo tem dividido opiniões e gerado muita polêmica. Nunca houve uma ‘Web 1.0’, então que estória é essa? Bem, vamos tentar explicar…

O assunto é delicado, pois uma parcela considerável dos profissionais da área considera que o termo não passa de uma ‘buzzword’ (um termo belo, mas vazio de significado real), que é apenas uma onda criada para explorar a necessidade de constante atualização exigida aos profissionais da área, etc., e que os criadores dessa ‘palavra mágica’ (que sacudiu toda a área de TI) ganham muito dinheiro divulgando e ensinando algo que eles próprios inventaram - uma espécie de golpe de marketing. Bem, este é um ponto de vista embasado e tem suas razões de ser, mas somente após conhecer as tecnologias, idéias e conceitos por trás da legenda ‘Web 2.0’ é que poderemos julgar. Portanto, mãos à obra.

Começaremos dizendo que ‘Web 2.0’ não é uma linguagem, nem um programa, nem um protocolo nem nada do gênero. É apenas uma idéia, um conjunto de ‘regras’ que sugerem uma nova maneira de fazer e usar a internet. Algumas tecnologias novas (e outras nem tanto) associadas a conceitos como padronização, usabilidade e interatividade e ao ‘novo nível’ de capacitação da média dos internautas mudou o panorama da web e um ‘novo paradigma’ precisou ser formulado – e esse novo paradigma foi chamado ‘Web 2.0’.

Principais conceitos envolvidos
  • Conteúdo participativo A possibilidade de interatividade e participação do usuário na criação e classificação dos conteúdos passou a ser uma característica comum a grande parte dos sites de sucesso atualmente e estudos comprovam que cada vez mais o internauta valoriza sites que permitem sua participação. Tanto que empresas como Yahoo! e Google estão envolvidos de corpo e alma na afirmação desses novos conceitos.
  • Classificação pessoal dos conteúdos Foram criados alguns sites que viraram sucesso imediato, como o del.icio.us, que permitem ao usuário classificar endereços da web com TAGs (rótulos) personalizados, organizando a ‘sua internet’ a sua própria maneira, além de poder compartilhar sua relação de ‘favoritos online’ com outros internautas. É o que se chama hoje ‘social-bookmarking’ ou ‘tagsonomia’.
  • Design e usabilidade O design também sofre modificações com a Web 2.0, tendendo a um estilo mais clean, que valoriza também os espaços em branco. Primeiro que a preocupação com o grau de usabilidade do site passa a ser primordial, depois, a variedade de tipos de mídia e tamanhos de monitor torna a apresentação do site uma questão bem mais complexa, exigindo o uso de CSS. A informação deve estar à mão, a poucos cliques de distância e dentro de uma hierarquia de organização que seja de fácil entendimento ao usuário.
  • Novas tecnologias e novas abordagens para velhos temas O Javascript, linguagem de script natural do HTML, surgiu para dar um mínimo de autonomia às páginas HTML. Mas hoje, na versão 1.5, o Javascript é uma linguagem de programação poderosa, capaz de interagir com outras linguagens e possibilitando ao desenvolvedor criar sistemas mais rápidos e confortáveis, efetivamente mais interativos. Enfim, mais próximos das aplicações de desktop.
  • A web como plataforma de desenvolvimento Acabou a era do conteúdo estático. Ao invés de ‘páginas’, agora teremos cada vez mais ‘programas’ online. A rede passou a oferecer tudo: linguagens de servidor / cliente mais poderosas, com alta portabilidade, além de conteúdo farto - muitos sites passaram a oferecer seus conteúdos na forma de serviços ou ‘web-services’, que podem ser acessados e utilizados por outros sites ou aplicativos.
  • Sintetizando conteúdos Com o advento dos ‘web-services’, tornou-se possível organizar conteúdos de várias fontes numa única página e vários sites começaram a oferecer esse tipo de serviço, denominado ‘mash-up’. Esses sites tem uma relação de conteúdos disponíveis e o usuário ‘monta’ sua própria página.
  • Padronização Com a diversidade de recursos e tipos de dispositivos de mídia capazes de exibir um site da internet, a necessidade de seguir certos padrões de desenvolvimento se tornou maior que nunca. A internet, essa verdadeira ‘Torre de Babel’, precisava mesmo de um pouco de ordem… Surgiu então a W3C e outras organizações com a finalidade de promover essa ‘linearização’, para que em breve tempo não precisemos nos preocupar com as diferenças entre os navegadores. O que chamamos de ‘programação crossbrowser’ é na verdade um conjunto de ‘gatilhos’ para evitar um problema que é, em essência, desnecessário.

A justificativa da negação

A verdade é que as tecnologias que servem à internet vêm se aprimorando (e se modificando) desde que tudo começou. O ambiente da internet foi concebido originalmente para suportar a linguagem HTML, com textos, imagens, links, sons, enfim, poucas opções de componentes para exibir um conteúdo estático e não-interativo, mas isso começou a se modificar imediatamente e num processo gradual e constante, até chegar ao que é a internet hoje. Isso significa que o que alardeiam como ‘Web 2.0’ não passa da evolução natural da coisa e que se ninguém falasse nada a respeito, não faria a menor diferença. Todos os tópicos citados acima como diretrizes de um novo movimento, já existem há tempos, excetuando-se as funcionalidades adicionadas pelas novas versões de programas e linguagens envolvidos no processo. Então qual a vantagem de vender esse peixe agora, como se fosse um ‘novo produto’, quando tudo não passa da mesma coisa de sempre?

Qual a vantagem?

A vantagem está justamente em alardear a Web 2.0 como ‘a nova realidade da internet’, como um ‘novo padrão a seguir’, criando com isso a possibilidade de ‘moldar o futuro’ e criar padrões para orientar os desenvolvedores e evitar que a confusão que reina há tanto tempo permaneça. ‘Web 2.0’ é um marco, um divisor de águas, uma mudança de paradigma muito bem vinda, mas não é algo fácil de apreender nem nada palpável… é apenas uma idéia. E só quem navega com alguma facilidade pelo oceano das idéias percebe que o mundo das coisas palpáveis é o apenas o reflexo delas. São as idéias que dão origem às coisas e qualquer movimento sem a sustentação de uma idéia é vazio de significado. Um pouco de filosofia talvez ajude a explicar o que quero dizer: web 2.0 não passa de uma idéia, mas a partir dessa idéia vamos conseguir, no futuro, uma atitude mais coerente e embasada por parte dos zilhões de webdesigners e webdevelopers pelo mundo afora. Se todos que tem uma tesoura se dissessem barbeiros e cabeleireiros, já imaginou como seriam os cabelos por aí? … certamente iguais a certos sites que ainda vemos em grande número na internet…

Web 2.0, ok. Mas quando isso acontecerá?

Surpresa: já acontece há algum tempo. É isso mesmo, a Web 2.0 já é uma realidade, nós é que não tínhamos percebido. O termo foi usado pela primeira vez simplesmente para definir o abismo que há entre os sites da década de 90 e os atuais, e entre a atitude dos internautas daquela época e a dos de hoje – melhor informados, mais familiarizados com os processos e interfaces da internet e principalmente mais exigentes e participativos. Como foi dito no tópico acima, o termo ‘Web 2.0’ veio apenas ‘batizar’ a nova maneira de fazer, separando o joio do trigo e determinando certas diretrizes de procedimento para o futuro.

Um movimento maior e anterior…

Antes de se inventar o termo web 2.0, já havia um movimento no sentido de padronizar a internet, com a criação de organizações como a w3c e outras, que tem por finalidade desenvolver padrões (comumente chamados ‘web-standarts’) para imprimir um certa ordem à bagunça que é a internet. Para os desenvolvedores, principalmente no tocante às tecnologias ‘client-side’, que dependem do navegador, a padronização é um sonho, significando uma redução substancial do código. E o termo ‘web 2.0’ define sites que, além de levar em conta a participação do usuário, abraçaram o movimento ‘web-standarts’ – que, poderíamos dizer, é a especificação da parte tecnológica do padrão definido pelo termo ‘web 2.0’. Por este aspecto, o que se chama hoje de ‘web 2.0’ pode ser visto como uma nova abordagem, mais completa, daquele mesmo movimento que começou com os web-standarts.

Conclusão

Bem, visto tudo isso, acho que fica claro que sou um entusiasta da web 2.0. Considero que esse papo de que isso nunca existiu, não significa nada, etc., é coisa de quem não conseguiu perceber as implicações implícitas no movimento. A febre ‘web 2.0’ é apenas um ‘ritual de passagem’, algo que veio para lembrar a todos os envolvidos que a web agora mudou. É a evolução natural sim, mas era preciso falar disso, acordar todos e fazê-los ouvir. Não que os sites padrão ‘web 2.0’ sejam melhores que os mais antigos, mas é que ao seguir as tendências globais, você se torna mais compatível com o futuro, além de dar uma perspectiva de sobrevivência maior aos seus sites e poder contar com mais recursos na hora de desenvolvê-los.

O momento é de inversão: os usuários, que sempre tiveram que suar a camisa para compreender e usar as interfaces que lhes eram oferecidas, agora têm o comando e estão forçando os desenvolvedores a seguir as suas decisões. O público agora é rei - é a tão falada ‘democracia na rede’ se tornando realidade.

Por fim vou afirmar que, mesmo não sendo um conceito tão objetivo quanto muitos gostariam, a tal da ‘Web 2.0’ existe sim - e será um marco na história do desenvolvimento web.

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